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Taxa de câmbio e a competitividade

Real desvalorizado afeta diretamente as indústrias, seja com aumento dos custos de produção de alguns setores, seja com estímulo às vendas externas de outros

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por Evânio Felippe*

Numa comparação simples entre o período que vai de janeiro a setembro deste ano com igual intervalo de 2020, o valor médio da taxa de câmbio no Brasil teve uma variação para cima de 5,1%, ou seja, ficou mais caro comprar dólar aqui. O que significa dizer que o real teve desvalorização em relação à moeda americana. Parece pouco, mas qualquer alta ou queda na taxa de câmbio, uma das principais variáveis da atividade econômica, tem impacto direto na atividade produtiva e na vida das pessoas.

Para a indústria, esse é um componente que tem duas faces. Por um lado, o câmbio depreciado (desvalorizado) afeta diretamente as operações nas indústrias. Isso ocorre porque muitos insumos utilizados na fabricação de produtos são importados e, portanto, cotados em dólar. Quando a moeda sobe, o custo de produção fica mais elevado. Para o empresário não perder competitividade no mercado, nem sempre esse aumento pode ser repassado integralmente aos clientes. Com lucro menor, a capacidade de fazer investimentos e de gerar empregos também fica comprometida.

Com o dólar cotado atualmente em torno dos R$ 5,5794**, alguns setores são mais afetados do que outros. O automotivo, por exemplo, tem aumento nos custos de produção, já que 60% das peças e acessórios utilizados nas linhas de montagem são importados. Quando não há nada previamente estabelecido em contrato, a conversão da moeda nas transações é feita seguindo a cotação do dia. Uma encomenda feita com antecedência, por um preço bom, pode passar a ser um mau negócio se houver alta repentina da taxa de câmbio no intervalo entre o período da compra dos produtos até o desembarque no Brasil. Uma peça que custa US$ 100, por exemplo, e demora alguns dias para chegar, numa súbita alta do dólar a conversão da moeda no valor do dia pode encarecer o produto e inviabilizar o negócio, gerando prejuízo.

O problema, como se observa, além do valor da taxa em si, é a forte oscilação para cima ou para baixo. E é muito difícil prever essa variabilidade da taxa. Muitos fatores podem influenciar a flutuação, como o comportamento do mercado financeiro, a taxa de juros (Selic) praticada no país e até aspectos políticos, entre outros.

Aqui vale uma ressalva. Mesmo segmentos da indústria que não utilizam recursos importados podem sofrer as consequências do câmbio depreciado. O de carnes, por exemplo. Muitos insumos utilizados na alimentação dos animais são cotados em dólar. Com a moeda nacional desvalorizada, o custo de produção aumenta consideravelmente.

Além disso, uma moeda mais forte favorece a compra de produtos de outras economias (importações) e tanto empresas quanto a população têm acesso a uma gama maior de bens e serviços produzidos no exterior. Há, portanto, um aumento na concorrência entre mercadorias e serviços brasileiros com produtos importados, o que é bom para o consumidor, mas não tão bom para o produtor porque limita a concorrência da indústria nacional no mercado mundial. A taxa de câmbio valorizada abre brechas para que empresas brasileiras que fabricam produtos similares aos oferecidos no exterior sofram forte concorrência e tenham sua capacidade de ajustar preços reduzida no caso de uma variação significativa nos custos de produção. O fomento da importação estimula a geração de empregos e riquezas fora, nos mercados onde o Brasil compra produtos.

Por outro lado, essa política de valorização do dólar frente ao real também pode favorecer a indústria nacional e o crescimento econômico. Embora iniba as importações, ela estimula as vendas externas e torna o produto brasileiro mais competitivo, aumentando a produção nas fábricas. Para dar conta da demanda, as indústrias tendem a contratar mais trabalhadores, gerando emprego e renda no país. Com mais recursos circulando na economia, a atividade de consumo cresce e toda a cadeia produtiva local se beneficia. Isso tem efeito tanto para a atividade extrativa e para a agroindústria quanto para setores da indústria de transformação, como os de carnes, madeira, automotivo, celulose e papel, entre outros.

Por tudo isso, percebe-se que o valor da taxa de câmbio é fundamental para a economia. Num breve resgate histórico de avaliação do crescimento da economia mundial, não há registro de nenhum país industrializado que tenha abdicado de utilizá-la como mecanismo de incentivo à economia. A China, por exemplo, que é a economia que mais cresce no mundo, tem como premissa de seu planejamento econômico uma taxa de câmbio depreciada.

O ideal, portanto, é que tanto para estimular a economia quanto para não encarecer demais os custos de produção, a taxa de câmbio opere numa faixa em que não prejudique a competitividade e, ao mesmo tempo, alavanque negócios dentro e fora do país.

*Evânio Felippe é economista da Fiep

** Cotação de 26 de outubro de 2021

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